Profetas da Selva: notas e reflexões para ler a obra

A América indígena tem a capacidade de desconcertar todos aqueles que tentam compreender sua verdadeira face. Não se sabe ao certo como tudo começou, ou como nossos ancestrais chegaram aqui, mas certamente herdamos do  continente  sul-americano, e de nossos antepassados que o habitavam, uma geografia sumária e superficialmente verídica: de um  lado, as Altas Culturas Andinas, e  todo o prestígio de seus refinamentos; de outro, as culturas da Floresta Tropical, tenebroso reino de tribos errantes através de savanas e selvas[1].

Estivemos acostumados a ver os indígenas, primeiros habitantes das terras baixas da América do Sul, de maneira muito rasa, associados somente à exuberância de sua arte plumária ou a reduções simplistas de sua cultura. Estas imagens nos foi construída desde os relatos dos primeiros cronistas (ou repórteres) de 1500, e teve maior veiculação com a mídia televisiva a partir da década de 1950.

Há pouca verdade aí. Existe um mundo muito mais complexo debaixo desta camada superficial.

O estudo da mitologia indígena brasileira nasceu a partir da curiosidade de investigar os hiatos existentes em nossas compreensões sobre este tema e sua complexidade. Uma pesquisa que começamos a empreender há cerca de quatro anos teve como primeiro experimento cênico o espetáculo “Música Para Dias de Chuva”, e encontrou um recorte específico em “Profetas da Selva”.

O espetáculo profetas da selva encontra inspiração na mitologia indígena brasileira em torno de “Yvy Marã ey”, a Terra Sem Mal, morada dos deuses, um paraíso terrestre onde os homens seriam iguais aos deuses e viveriam eternamente, em uma infinita festividade.

Desde o século XV grandes grupos indígenas teriam se deslocado em amplas migrações que sairiam do litoral de São Paulo e iriam até as terras costeiras do Oceano Pacífico, no Peru.

Estes indígenas acreditavam que, rumando para o Oeste, seria possível alcançar a Terra Sem Mal, que estaria localizada, geograficamente, além das cordilheiras andinas, no poente[2]. Assim, diversas trilhas  remanescentes (chamadas de Peabiru) indicam provas da existência  destas longas caminhadas, alternadas por jejuns e danças e conduzidas por grandes profetas Tupi e Guarani.

Não são somente os Tupi e os Guarani que têm esta crença profética. Diversas outras etnias comungam desta crença. Entretanto, adotamos um recorte para este trabalho a partir das etnias que pertencem ao tronco lingüístico Tupi-Guarani.

Ao contrário do que nos fizeram pensar os primeiros cronistas, ou repórteres do século XVI (que em sua maioria eram padres jesuítas), as etnias indígenas que viviam no Brasil antes do sécculo XVI e do confronto com os portugueses eram muito numerosas e muito diferentes entre si. É um equívoco imaginar que todos que viviam por aqui eram uma coisa só, como pensavam nossos primeiros escritores.

Existem hoje no Brasil cerca de 240 etnias. No século XVI, alguns autores estimam a população indígena entre 2 e 4 milhões de pessoas, pertencentes a mais de 1.000 povos diferentes. Para termos uma ideia, os Guarani (etnia pertencente ao tronco lingüístico Tupi-Guarani) são tão diferentes dos Xavante (etnia do tronco Jê) quanto espanhóis são diferentes de alemães.

E, assim como são distintas as etnias, a mitologia indígena é muito extensa, e diferente para cada um dos grupos.

Mas é preciso considerar que aqueles europeus que inicialmente escreveram sobre nós tinham um filtro bem específico para o olhar.

As impressões que tiveram os europeus do Brasil foram primeiramente registradas pelos olhares dos padres portugueses e castelhanos, da Ordem Jesuíta, ou Companhia de Jesus, fundada em 1534, e que permanecerão em nossas terras até o século XVIII. Estes padres escreverão a respeito dos indígenas do Brasil baseados nesse filtro e a partir de uma ótica – e de uma lógica – interessada em sua conversão, comprometidos com a missão evangelizadora empreendida pela Igreja Católica no mundo novo, a fim de resgatar e encaminhar o ‘gentio’ para as doutrinas da fé cristã.

Não é novidade, para o europeu do século XVI e para a configuração de sua mentalidade, o conhecimento de povos e populações diferentes da sua. Já haviam dominado e subjugado diversas culturas, desmontando e suplantando seus ídolos.

A novidade, entretanto, entre os nativos da América portuguesa, é a ausência de ídolos. não há qualquer adoração, entre os povos da floresta, de ídolos concretos. “Não crêem em nada. Não têm fé, nem lei, nem rei”. Os cronistas encontravam boas razões para se mostrarem surpresos: como poderiam compreender, com efeito, que gente dona de uma língua cuja riqueza, harmonia e complexidade todos admiravam sem reserva, dotada de suficiente razão natural para estabelecer uma ordem social que distinguia cuidadosamente os nobres dos plebeus pudesse, ao mesmo tempo, viver sem fé nenhuma, praticar a poligamia, guerrear sem descanso e, o cúmulo, comerem-se uns aos outros? [3]

Os relatos sobre as experiências e dificuldades dos missionários religiosos na evangelização e conversão dos povos “selvagens” são as primeiras notícias escritas que teremos das terras e das gentes “descobertas” do lado de cá. Estes relatos circularão no século XVI e chegarão até os nossos dias.

E, embora não tenham se atentado a alguns aspectos, o que os padres escritores deixam escapar, no entanto, são pistas valiosíssimas.

O que provoca uma interessante reviravolta. Se os cronistas de 1500 diziam que os Guarani não acreditavam em nada, os do século XX diriam sobre eles: “teólogos da América Latina”, tão formidável era – na antiguidade, e é hoje – a complexidade de seu sistema mítico-religioso.

Mas vamos voltar ao recorte mitológico proposto: a Terra Sem Mal.

O que temos relacionado a esta mitologia sugere olhar com maior destaque para alguns aspectos da cultura indígena brasileira:

  • O Profetismo – a exponente e importantíssima figura do PROFETA
  • A emblemática figura do GUERREIRO
  • O PEABIRU – o caminho trilhado, hipoteticamente, em função do êxodo em busca de uma terra prometida pelos deuses e espíritos, utilizado por séculos (do qual restaram vestígios).

Nossa estratégia, neste trabalho, foi entender que o conceito filosófico e religioso da busca pela Terra Sem Mal foi transferido, ao longo dos séculos, dos tupi-guarani quinhentistas para os Guarani atuais.

Em primeiro lugar, e fundamentalmente, É preciso considerar que, para os indígenas em geral, os aspectos religioso, político, social e cultural estão intimamente ligados. Isso determina sua cosmovisão (visão de mundo).

Assim, é preciso compreender a cultura indígena associada à interdependência destes domínios.

A partir desta hipótese, fomos vivenciar de perto a cultura Guarani, através de intercâmbios nas aldeias Guyrapa-Ju (em São Bernardo do Campo) e Krukutu (em São Paulo). Através de imersões nestas aldeias, propusemos uma recomposição destas danças praticadas pelos indígenas na antiguidade, revistas por meio da dança contemporânea.

Especificamente, o que nos interessou nesses intercâmbios, foram o aspecto religioso da cultura, e a prática do xondaro, que é ao mesmo tempo, dança e treinamento marcial do guerreiro Guarani, que o mantém saudável, desperto e disposto.

Xondaro

A dança do xondaro é uma forma de estar em sintonia com os Nhanderu kuery (divindades), que estariam dançando no pátio da Opy de Nhanderu eté (aquele que criou a Terra). Os indígenas dançam como estas divindades para lembrar de onde vieram e para recordar seu destino de tornarem-se deuses.

“Os nhe’ē kuery vem de diversas moradas” (tupã, tupã xondaro, karaí mbaraete, etc). Como eles, todos os indígenas vem para uma prática específica. Alguns vem com a prática de tocar o mbaraka (violão), outros com a prática do rave’i (rabeca), alguns vem com a prática da dança”…

O xondaro não é só uma dança, mas uma prática relacionada a uma forte ligação com o mundo espiritual. Por meio da dança é possível elevar os pensamentos para alcançar o fogo celeste das divindades, e a pessoa  entra em transe.

Evidentemente, a dança é exigente e exaustiva. Mas há um ponto, especificamente, em que o transe é, também, uma analgesia. “Então acontece o fortalecimento.” O suor na dança elimina as energias negativas (pitua), purifica a alma e concede energia para os trabalhos do dia a dia.

 

(…)

___________________________________

NOTAS

O profeta seria uma figura do movimento perpétuo.

(Sztutman, p. 48)

Para os tupi e os Guarani, o indivíduo perfeito é aquele que passa pelos rituais de iniciação na infância (kurumi) e na adolescência, torna-se um grande guerreiro quando adulto (avá) e passa a deter poderes xamânicos à medida que envelhece (tujuaé). Ou seja, o grande indígena é aquele que acumula, por um lado, os poderes políticos (seculares) do guerreiro e, por outro, os poderes religiosos (temporais) do profeta.

Na cosmovisão indígena, A figura do profeta é extremamente emblemática.

O profeta promove Dobraduras entre domínios religiosos e políticos.

Tanto o guerreiro quanto o profeta antecipam o destino de todo mortal, que é o de tornar-se deus. (P. 57)

O complexo papel do profeta Guarani: poeta, sacerdote e líder político, ingressam em um território no qual ainda concorrem com o médico.

  1. 50: viveiros de Castro: estudo sobre a cosmologia Guarani (21)
  1. 156[4]

Sobre a pessoa ideal para o indígena.

Entre os antigos Tupi, a diferenciação do grande guerreiro dos demais integrantes do grupo está tanto no acúmulo de nomes que ele carrega quanto também na quantidade de escarificações que o guerreiro traz no corpo. Os nomes e as cicatrizes das escarificacoes (adquiridos a cada inimigo morto), acumulados no guerreiro tupi, eram símbolo de magnitude, e sublinhavam o estatuto do avá.

Assim como o número de contas no colar do cativo aprisionado, que indicava quantos dias ainda tinha de vida, a quantidade de cicatrizes indicavam, no grande guerreiro, o número de feitos e a quantidade de vítimas.

 O transcorrer do tempo do processo de cicatrizarão das escarificações indicava a integração do inimigo pelo matador e, assim a separação de ambos, a vítima tendo se tornado deus, passando para o campo da pura generalidade, e o matador tendo se tornado um grande homem, passando para o campo da singularidade. (Sztutman, P. 168)

Uma pessoa plena é aquela que pode integrar em si uma subjetividade outra, em que tornase não apenas homem, mas também deus. Entre os tupi quinhentistas, o guerreiro portanto, o matador é aquele capaz de antecipar o  seu destino divino na terra, porque conseguiu íntegrar em sua subjetividade uma combinação entre humanidade e a divindade.

O xamã e o guerreiro (p.58)

O xamã, como o guerreiro, no caso arawete analisado por viveiros de Castro,

e que num esforço comparativo é semelhante ao caso tupiguarani, sao elos de comunicação com os deuses. O Xamã é, por definição, um morto antecipado, pois ainda não é um deus, mas um intérprete da voz divina. O guerreiro seria um deus antecipado, pois é capaz de garantir em vida uma transformação que aos demais mortais só é permitida com a morte. (A transformação da subjetividade pelo canibalismo)

O xamã é um ser dividido entre o mundo real e o mundo sobrenatural, comunicando-se com a realidade invisível da floresta e dos deuses e extraindo desta realidade o conhecimento passível de ser transmitido.

Esta operação implica a “necessidade de uma subjetivação do mundo, o que significa dizer que diferentes seres do cosmos são dotados de prerrogativas de humanidade. Assim, o xamã se apropria desta subjetividade diversa, amansando e domesticando para não acarretar a sua dissolução total como sujeito.

 

Profetas da selva – o espetáculo

A encenação segue o sentido anti-horário, da direita para a esquerda, pois esse é o modo como se pratica o xondaro e o modo como se dão as caminhadas em círculo quando entramos na Opy (a casa sagrada). O Guarani tem uma concepção de que o tempo novo, quente (ara pyau) aquece o tempo velho, frio (ara yma)[5]. Essa ideia belíssima de o futuro aquecer o passado.

Sobre a música

Tomamos como ponto de partida a musicalidade de etnias do tronco linguístico tupi-Guarani.

Baseados nesta musicalidade, nos embrenhamos na possibilidade de uma releitura dos instrumentos musicais[6] Guarani , utilizando arcos sobre cordas de violão, abordando a dramaticidade destes acordes e propondo uma paisagem sonora densa e surpreendente.

Um contraponto fica estabelecido, por um lado, por chocalhos feitos com sementes que os bailarinos vestem nos pés. Por outro, pela inclusão de dois diálogos yanomami ao longo da trilha sonora.

Por fim, e ao final do espetáculo, a musicalidade do próprio xondaro Guarani ganha destaque, amarrando toda a composição.

[1]  Pierre Clastres. A Sociedade Contra o Estado

[2] É possível também a proposição oposta, que estaria para além do grande mar, no nascente.

[3]  Heléne Clastres. Terra Sem Mal.

[4]  Renato Sztutman. O Profeta e o Principal.

[5] Xondaro. A força do Mbaraeté

[6] os instrumentos musicais Guarani mbaraka (violão) e rave’i (rabeca) acompanham os cantos entoados em homenagem a Nhanderu. No caso do xondaro, ainda estão presentes o mbaraka miri (espécie de Maracá) ou o popyguá (instrumento formado por dois pequenos bastões de madeira que ao se tocarem são percussivos) com os quais os líderes conduzem a dança.

O espetáculo Profetas da Selva, bem como atividades referentes a ele, foi aprovado no Edital PROAC nº 04/2015 – Produção de Espetáculo Inédito e Temporada de Dança pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

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