A Família Real muda para o Brasil

1808
O século XIX se abriu agitado por guerras no continente europeu, sobretudo pela disputa de territórios e de liderança entre França e Inglaterra.

Do lado da França, a Revolução Francesa encontrou novo fôlego para avançar nas reformas pretendidas através da nomeação de um novo general, Napoleão Bonaparte. O novo imperador militar saiu conquistando e anexando territórios a França, que tomará a dianteira como potência econômica e política neste século que se inicia.

Já do lado inglês, a cidade de Londres ultrapassava 1 milhão de habitantes, e o desenvolvimento econômico e político corria rápido por ali. a marinha inglesa, que até aqui já era tida como a mais poderosa do mundo, seguia prosperando. A revolução industrial* tomara corpo e a Inglaterra liderava no pioneirismo da implantação das maquinas e de outras inovações. A indústria crescia, o operariado crescia.

*http://www.sohistoria.com.br/resumos/revolucaoindustrial.php

Pois bem. Em 1806, Napoleão Bonaparte, imperador da França, decretou o Bloqueio Continental, proibindo que qualquer país aliado – ou ocupado – das forças francesas comercializasse com a Inglaterra. O objetivo do bloqueio era arruinar a economia inglesa. Quem não obedecesse, seria invadido pelo exército francês.

Portugal via-se numa situação delicada. Nessa época, Portugal era governado pelo príncipe regente D. João, pois sua mãe, a rainha D. Maria I, enlouquecera. D. João não podia cumprir as ordens de Napoleão e aderir ao Bloqueio Continental, pois tinha longa relação comercial com a Inglaterra. por outro lado, o governo português temia o exército francês (faça um pouco de força e imagine o pânico que o exército francês causava por aquelas terras).
Sem outra alternativa, Portugal aceitou o Bloqueio, mas continuou comercializando com a Inglaterra.

Ao descobrir a trama, Napoleão determinou a invasão de Portugal em novembro de 1807. Sem condições de resistir à invasão francesa, D. João e toda a corte portuguesa fugiram para o Brasil*, sob proteção naval da marinha inglesa. A Inglaterra ofereceu escolta na travessia do Atlântico, mas em troca exigiu a abertura dos portos brasileiros aos navios ingleses.

* Dom João no Brasil (clique para link)

A corte portuguesa partiu às pressas de Lisboa sob as vaias do povo, em 29 de novembro de 1807. Na comitiva vinha D. João, sua mãe D. Maria I, a princesa Carlota Joaquina; as crianças D. Miguel, D. Maria Teresa, D. Maria Isabel, D. Maria Assunção, D. Ana de Jesus Maria e D. Pedro (o futuro imperador do Brasil) e mais cerca de 15 mil pessoas entre nobres, militares, religiosos e funcionários da Coroa. A corte abandonou a metrópole lusitana trazendo tudo o que era possível carregar: móveis, objetos de arte, jóias, louças, livros, arquivos e todo o tesouro real imperial.

família real no brasil 1_ henry L'Eveque, 1815
Família Real no Brasil. Henry L’Eveque, 1815

Após 54 dias de viagem, a esquadra portuguesa chegou ao porto de Salvador na Bahia, (em 22 de janeiro de 1808).
Seis dias depois, D. João cumpriu o seu acordo com os ingleses, abrindo os portos brasileiros à Inglaterra, eliminando o monopólio comercial português (que obrigava o Brasil a fazer comércio apenas com Portugal).

Mas o destino da Coroa portuguesa não era Salvador, mas sim o Rio de Janeiro, a capital da colônia*, onde D. João e sua comitiva desembarcaram em 8 de março de 1808 e onde foi instalada a sede do governo.

*Por que a capital do país mudou para o Rio de Janeiro? (clique para link)

Na chegada ao Rio de Janeiro, a Corte portuguesa foi recebida com uma grande festa: o povo aglomerou-se no porto e nas principais ruas para acompanhar a Família Real em procissão até a Catedral, onde, após uma missa em ação de graças, o rei concedeu o primeiro “beija-mão”.

Jean Baptiste Debret. Beija-mão na corte de D. João VI. 

A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro provocou uma grande transformação na cidade.  D. João organizou a estrutura administrativa do governo, Nomeou ministros de Estado, colocou em funcionamento diversas secretarias públicas, instalou tribunais de justiça e criou o Banco do Brasil (1808).
Era preciso acomodar os novos habitantes e tornar a cidade digna de ser a nova sede do Império português. O vice-rei do Brasil, D. Marcos de Noronha e Brito, cedeu sua residência (O Palácio dos Governadores) para o rei e sua família, e exigiu que os moradores das melhores casas da cidade fizessem o mesmo. Duas mil residências foram requisitadas, pregando-se nas portas o “P.R.”, que significava “Príncipe Regente”, mas que o povo logo traduziu como “Ponha-se na Rua”. Prédios públicos, quartéis, igrejas e conventos também foram ocupados. A cidade passou por uma reforma geral: limpeza de ruas, pinturas nas fachadas dos prédios e apreensão de animais.
As mudanças provocaram o aumento da população na cidade do Rio de Janeiro, que por volta de 1820 somava mais de 100 mil habitantes, entre os quais muitos estrangeiros – portugueses, comerciantes ingleses, corpos diplomáticos – e contingentes da população interna que se deslocara procurando novas oportunidades na capital.

As construções passaram a seguir os padrões europeus, e novos elementos foram incorporados ao mobiliário: espelhos, bibelôs, biombos, papéis de parede, quadros, instrumentos musicais, relógios de parede.

Com a Abertura dos Portos (1808) e os Tratados de Comércio e Navegação e de Aliança e Amizade (1810), estabelecendo tarifas preferenciais aos produtos ingleses, o comércio cresceu. O porto do Rio de Janeiro aumentou seu movimento de 500 para 1200 embarcações anuais.
A oferta de mercadorias e serviços diversificou-se. A Rua do Ouvidor, no centro do Rio, recebeu o cabeleireiro da Corte, costureiras francesas, lojas elegantes, joalherias e tabacarias. As novidades mais requintada eram os chapéus, luvas, leques, flores artificiais, perfumes e sabonetes.
Para a elite urbana, a presença da Corte e o número crescente de comerciantes estrangeiros trouxeram familiaridade com novos produtos e padrões de comportamento em moldes europeus. Embora apenas uma pequena parte da população usufruísse desses luxos, As mulheres, seguindo o estilo francês, adotaram o uso de vestidos leves e sem armações, com decotes abertos, cintura alta, deixando aparecer os sapatos de saltos baixos, Enquanto os homens usavam casacas com golas altas enfeitadas por lenços coloridos e gravatas de renda, calções até o joelho e meias.

a vinda de D. João deu um grande impulso à cultura no Brasil.
Em abril de 1808, foi criado o Arquivo Central, que reunia mapas e cartas geográficas do Brasil e projetos de obras públicas. Em maio, D. João criou a Imprensa Régia e, em setembro, surgiu a Gazeta do Rio de Janeiro. Logo vieram livros didáticos, técnicos e de poesia. Em janeiro de 1810 foi aberta a Biblioteca Real, com 60 mil volumes trazidos de Lisboa.
Criaram-se as Escolas de Cirurgia e Academia de Marinha (1808), a Aula de Comércio e Academia Militar (1810) e a Academia Médico-cirúrgica (1813). A ciência também ganhou com a criação do Observatório Astronômico (1808), do Jardim Botânico (1810) e do Laboratório de Química (1818).
Em 1813, foi inaugurado o Teatro São João (atual João Caetano). Em 1816, a Missão Francesa, composta de pintores, escultores, arquitetos e artesãos, chegou ao Rio de Janeiro para criar a Imperial Academia e Escola de Belas-Artes. Em 1820, foi a vez da Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura-civil.
A presença de artistas estrangeiros, botânicos, zoólogos, médicos, etnólogos, geógrafos e muitos outros que fizeram viagens e expedições regulares ao Brasil – trouxe informações sobre o que acontecia pelo mundo e também tornou este país conhecido, por meio dos livros e artigos em jornais e revistas que aqueles profissionais publicavam.
Perceba que, embora profundas e realizadas em menos de dez anos, estas mudanças não alteram os costumes da grande maioria da população carioca, composta de escravos e trabalhadores assalariados.

As nações européias sairão vitoriosas contra Napoleão, e com sua vitória, em 1815, ficou decidido que os reis de países invadidos pela França deveriam voltar a ocupar seus tronos.
D. João e sua corte não queriam retornar ao empobrecido Portugal. Então o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves (uma região ao sul de Portugal).
Com isso, O Brasil deixava de ser Colônia de Portugal, e adquiria autonomia administrativa.
Em 1820, houve em Portugal a Revolução Liberal do Porto, terminando com o Absolutismo e iniciando a Monarquia Constitucional (o que quer dizer que D. João deixaria de ser monarca absoluto e passaria a seguir a Constituição do Reino). Dessa forma, a Assembléia Portuguesa exigia o retorno do monarca. O novo governo português desejava recolonizar o Brasil, retirando sua autonomia econômica.
Em 26 de abril de 1821, D. João VI cedendo às pressões, volta a Portugal, deixando seu filho D.Pedro como príncipe regente do Brasil.

Advertisements

One thought on “A Família Real muda para o Brasil

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s