“Terra fecundada com sangue”

artigo originalmente publicado em www.historiaviva.com.br

Por Flávia Ribeiro

Durante quase 13 anos, entre 1554 e 1567, os índios brasileiros resistiram à dominação portuguesa não mais de forma isolada. Eles esqueceram desavenças entre povos e se uniram na Confederação dos Tamoios, que enfrentou os portugueses de igual para igual – e, durante um tempo, até mesmo com superioridade. À frente, caciques orgulhosos e belicosos de povos como tupinambás, goitacazes, aimorés e carijós. Tudo sob a liderança de Cunhambebe, chefe da aldeia Ariró, de Angra dos Reis, cacique temido pelos portugueses graças a seu hábito de reunir guerreiros para invadir e queimar fazendas e libertar índios escravizados. Isso sem jamais esquecer a tradição de comer os inimigos capturados e pendurar suas cabeças em estacas – boa parte dos povos indígenas brasileiros era antropófaga, mas a lenda sobre o canibalismo de Cunhambebe se sobrepunha às outras.

Cunhambebe instaurou um clima de terror permanente para os portugueses da capitania de São Vicente ainda na década de 1540. Depois, como líder da Confederação dos Tamoios, mostrou aos portugueses que eles não ficariam facilmente com esta terra. Acabou morto por doença, durante uma epidemia de varíola que matou centenas de homens e mulheres de sua aldeia, contraída pelo contato com franceses, seus aliados. Foi substituído na liderança da Confederação dos Tamoios por Aimberê, que perdeu o pai quando este era escravo em uma fazenda de engenho e havia sido, ele próprio, escravo – o que só aumentava sua sede de vingança.

Essa história, cheia de reviravoltas e emoção, é um dos momentos que marcaram o início da colonização brasileira, contados no livro A conquista do Brasil: 1500-1600 – Como um caçador de homens, um padre gago e um exército exterminador transformaram a terra inóspita dos primeiros viajantes no maior país da América Latina, do jornalista e escritor Thales Guaracy (editora Planeta). No livro, o autor joga luzes sobre um período pouco estudado de nossa história. Uma época em que, inicialmente, o Brasil foi desprezado pelos portugueses. Depois, ocupado à base de muita violência e do genocídio indígena. Uma “terra fecundada com sangue”, como escreve Guaracy no capítulo em que reconstitui a derrota indígena e a fundação do Rio de Janeiro.

O caçador de homens do subtítulo do livro é João Ramalho, o Piratininga, primeiro português a efetivamente viver no Brasil, onde iniciou um negócio no comércio de pau-brasil e, posteriormente, caça e venda de índios. Não se sabe exatamente a origem de João Ramalho, nem quando chegou ao país. O que se tem como certo é que ele se casou com Bartira, filha do cacique tupiniquim Tibiriçá, e teve com ela e com outras índias dezenas de filhos, iniciando uma nova raça, a dos mamelucos. Andava nu e era ainda mais selvagem do que os índios. Procurado pelos portugueses para ajudar a arrebanhar povos que lutassem ao lado deles, contra os índios inimigos, ao mesmo tempo era desprezado pelos jesuítas por seus costumes.

Já Manuel da Nóbrega era um padre gago que recebeu a missão de liderar a catequização dos indígenas brasileiros, com os quais a comunicação já era difícil sem o adendo de um problema de fala. Com ele trabalhavam outros jesuítas, como o padre José de Anchieta, que aqui chegou em 1953, aos 19 anos. Canonizado em 2014, o santo primeiro tentou catequizar os índios. Ao perceber que era uma causa perdida, escreveu que “para este tipo de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro”. Como analisa Thales Guaracy em entrevista à História Viva, “Manuel da Nóbrega chamava os índios de negros, mas não dá para pensar com conceitos modernos e dizer que ele era racista. O padre Anchieta, que hoje em dia é santo, fala que se deve tratar os índios com ‘espada e vara de ferro’, mas essa era uma visão da época. Os índios não eram simples bárbaros canibais. Eles tinham uma cultura, tradições. Também não eram vítimas pacíficas, coitados. A guerra fazia parte do sistema de vida deles. Tem que olhar como eram os costumes na época, em cada sociedade”, diz.

O exército exterminador foi o que acompanhou Estácio de Sá na derradeira investida contra a Confederação dos Tamoios, depois de 13 anos de uma guerra em que os portugueses muitas vezes se viram próximos da derrota. Em 1563, chegou-se a assinar um tratado de paz, o acordo de Iperoig. Ou, como explica o autor no texto, os termos de rendição dos portugueses. “Os jesuítas confessavam sua derrota, como cruzados e missionários. ‘É chegada esta terra a tal estado que já não devem esperar dela novas de fruto na conversão da gentilidade’, escreveu Anchieta”. Como garantia, até o acordo ser selado, Manuel da Nóbrega e Anchieta chegaram a ficar prisioneiros em uma aldeia por meses.

A paz assinada serviu para que os portugueses ganhassem tempo. Naquele mesmo ano e no seguinte, dois surtos de varíola se espalharam por várias capitanias – na de Todos os Santos, por exemplo, a população caiu de 80 mil para 8 mil pessoas. Em 1565, chegou ao Rio de Janeiro a esquadra de Estácio de Sá, que fincou posição aos pés do morro Cara de Cão, no Rio de Janeiro, em 1º de março. Quase dois anos depois, em janeiro de 1567, à frente de uma enorme esquadra, Mem de Sá, os portugueses e os temiminós – povo liderado pelo cacique Arariboia, que se aliou aos portugueses – tomaram dos tamoios o Rio de Janeiro, até então uma pedra no sapato da Coroa. No processo, 160 aldeias foram incendiadas e os índios, “passados ao fio da espada”.

“Da população de 3 milhões de indígenas anterior ao período colonial, restaram pouco mais de 200 mil na entrada do século XXI, a maior parte habitantes de reservas como o Parque Xingu”, conta Thales no livro, explicando que após o extermínio indígena, no fi m do século XVI, iniciou-se o tráfico mais organizado de escravos negros para o Brasil – antes, apenas a capitania de Pernambuco já usava mão de obra africana, por um golpe do destino: cunhado do donatário Duarte Coelho, Jerônimo de Albuquerque levou uma flechada no olho e foi capturado. Enquanto aguardava a morte, apaixonou-se por Tabira, filha do cacique, que correspondeu ao seu amor. Os dois se casaram e colaboraram para selar a paz entre os habitantes brancos e índios da região, fazendo com que Duarte Coelho procurasse comerciantes europeus protestantes e judeus para investir na compra de escravos da África.

Mas essa trama novelesca, também contada no livro, é exceção. O tráfico negreiro já é história para outros séculos. A dos anos 1500 se concentra nos indígenas, franceses e portugueses, párias ou não, que guerrearam para ver quem conquistaria o Brasil. Uma conquista sangrenta, que ficou marcada em nosso DNA, segundo Thales: “O brasileiro tem uma personalidade agressiva, historicamente. Vem de um povo sanguinário que chegou a um país e massacrou tudo o que lhe era diferente. Por isso somos um país só, de uma língua só. Não nos dividimos em vários países, como na América espanhola. Foi uma unidade imposta à força”.

“O brasileiro tem uma personalidade agressiva, historicamente”

O jornalista e escritor Thales Guaracy se apaixonou pelas origens do Brasil há cerca de 20 anos, quando começou a ler e pesquisar sobre o tema. O resultado dessa paixão é A conquista do Brasil: 1500-1600 – Como um caçador de homens, um padre gago e um exército exterminador transformaram a terra inóspita dos primeiros viajantes no maior país da América Latina, que ele lança  pela editora Planeta.

Por que você se decidiu por esse recorte, de 1500 a 1600?

O DNA do Brasil vem desse começo. Esse período é estudado com base no trabalho de historiadores do fi m do século XIX e início do XX, como Capistrano de Abreu e Varnhagen. Dar um ponto de vista mais contemporâneo foi a proposta. Além disso, hoje se tem acesso mais fácil a uma gama de documentos. Você não precisa mais ir até a Torre do Tombo (em Lisboa). Esse meu recorte vai principalmente dos primeiros viajantes até o fim do governo de Mem de Sá (1572), que é quando o Brasil Colônia se estabelece. É uma visão segundo a qual não existe uma fundação do Brasil, e sim um processo. Por isso, o livro não se chama “A descoberta do Brasil”, mas A conquista do Brasil, que levou 100 anos. Uma conquista durante a qual Mem de Sá mandou uma carta ao rei dizendo que o Brasil estava sendo colonizado por malfeitores. Problemas atuais do país têm raízes profundas em sua formação.

O que você aprendeu ao escrever o livro?

Documentos que eu conhecia havia muito tempo, hoje, para mim, têm outro sentido. O História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo, por exemplo. Não é um livro de história, é uma peça de marketing para convencer empreendedores a investir no Brasil. O começo do livro tem um poema de Camões para convencer Dom Leônis a fazer esse investimento – e não convence, ele não faz.

Qual foi sua maior dificuldade?

Foi me despir de preconceitos. Você precisa primeiro entender como eram as pessoas da época, sem julgá-las. Por exemplo: a guerra fazia parte do sistema de vida dos índios, servia até mesmo ao controle populacional; eles fariam guerra aos portugueses de qualquer forma.

O que mais o surpreendeu durante suas pesquisas?

Eu não tinha essa concepção tão clara da atuação dos jesuítas no massacre dos índios. Por que os jesuítas assumiram a liderança no massacre dos índios e na conquista do Rio de Janeiro? Porque era seu papel combater os hereges. Os índios, que andavam nus e tinham várias mulheres, eram hereges, assim como os franceses, calvinistas, que se associaram aos índios no Rio de Janeiro, que viviam entre eles. E os jesuítas eram os representantes da Inquisição no Brasil. O massacre e a fundação do Rio são marcos fundamentais na conquista do Brasil. E os jesuítas tiveram enorme papel nisso. Eles eram os maiores senhores de terra do Brasil, uma força econômica e política, além de religiosa. A extensão do poder da Inquisição na colônia foi impressionante. Há ainda figuras misteriosas, como João Ramalho, o Piratininga, que são interessantíssimas.

É o personagem mais o atraiu?

Acho o João Ramalho o personagem mais fascinante da história do Brasil. Ele criou um exército de índios, tornou-se um caçador e comerciante de índios e foi o criador de toda uma estirpe avessa à ingerência de um poder central. Um pessoal que viveu na contramão da história, ao mesmo tempo ferozes e empreendedores. Eram um desastre para São Paulo, enquanto o Nordeste prosperava. Quando a cultura da cana-de-açúcar decaiu, no entanto, esse pessoal se tornou a raiz do crescimento do país. A começar pelos bandeirantes. Tudo começa ali, até a rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. Ela é histórica. Os paulistas sempre viram o Rio como uma ameaça: lá estavam os índios que se defenderam, lá estavam os franceses.

Falando do extermínio indígena, concentrado principalmente das década de 1530 a 1570, você se refere ao Brasil como “terra fecundada com sangue”. A imagem de povo cordial resiste a uma análise da realidade?

O brasileiro tentou vender essa ideia de povo cordial até para ele mesmo. O brasileiro tem uma personalidade agressiva, historicamente. O catolicismo disfarça o contexto social, cria essa ilusão de cordialidade. O patrão quer mostrar uma face mais humana, toma um trago com o empregado no boteco, mas dá um pulo na cadeira quando o salário mínimo aumenta. A origem do brasileiro é uma aristocracia preguiçosa e uma mão de obra rebelde: o índio não se submetia nem ao próprio cacique e o português dependia dos escravos, até porque não gostava de trabalhar.

Flávia Ribeiroé jornalista

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