Profetas da Selva: Diário das visitas à aldeia

24 de janeiro.

Chegamos por volta das 17h30 em Guyrapa-Ju.

Assim que cheguei, pareceu que o relógio parou de funcionar. Um pouco pelo próprio objetivo do trabalho e do intercâmbio, no qual suponho estar predisposto para o tempo suspenso do ritual e do encontro, e um pouco porque na mata o tempo é realmente outro. Acompanhei uma cerimônia na Opy, composta por cantos a Nhanderu, e algumas danças realizadas pelas crianças acompanhando estes cantos.

A Opy é a casa sagrada, ou casa de reza, construção mais importante da aldeia Guarani.


Seguiu uma espécie de conselho onde são discutidos temas pertinentes a Guyrapa, à aldeia Brilho do Sol e, evidentemente, a militância política por pautas indígenas. (Fui convidado a ir à frente, me apresentei, agradeci a abertura e oportunidade e contei um pouco o que estava indo fazer ali).

Esteve entre nós, em Guyrapa, o Xamõi Papá, da aldeia Tenondé porã. Xamõi (também encontrei a grafia xiramoi), entre os Guarani, é o nome dado ao pajé.

Ao conselho seguiu uma cerimônia na qual uma pessoa se senta numa cadeira, voltada para a parede mais importante da Opy. o Xamõi, assim como outras pessoas da aldeia, defumam, com o pepeguá (cachimbo), essa pessoa. Trata-se de um ritual de cura. Esta ação se repetiu com algumas pessoas. Houve música o tempo inteiro, com violão (mbaraka) e rabeca (raveí). Depois que algumas pessoas passaram por esta defumação, seguiu-se um ritual no qual todos os homens e algumas mulheres deram voltas na Opy defumando o espaço com o pepeguá. Sempre no sentido anti-horário.

Todas as práticas continentes nesta cerimônia me deram uma sensação de um poder muito intenso. O ritual é muito poderoso.

Passei a noite entre os Guarani. Dormi num colchão dentro da Opy.

25 de janeiro

A base de nosso intercâmbio, oportunamente proposto por roger Muniz, foi que eu cozinhasse (dada minha intensa paixão e constante prática em cozinhar) um caldinho de feijão para a aldeia.

Hoje passei toda a tarde no fogo.

Ontem pela manhã os xondaro da aldeia foram colher ervas para a cerimônia da erva, que rolou hoje à noite. Xondaro é uma posição complexa ocupada pelos homens da aldeia. Poderíamos traduzir, a grosso modo, como um modo de ser guerreiro, que inclui tarefas cotidianas como construir habitações, proteger a aldeia, cortar lenha, cuidar da roça, tocar instrumentos, ensinar os mais jovens. Enfim, ha diversas especificidades e atribuições no papel desempenhado pelos xondaro, para as quais, para um interesse mais aprofundado, vale a leitura do livro (…) link aqui.

Hoje De manhã os xondaro dividiram as ervas em pequenos ramos. Eu pude ajudá-los. Nesta tarefa conversei muito com Elson (?) (não sei como escrever o nome dele), que esteve ligado a um grupo, coordenado por Maria Inês Ladeira, do CTI (centro de trabalho indigenista), em um grupo de estudos justamente relacionado a yvy marã ey no sul do país.

Terminamos o preparo das ervas e eu fui pro fogo.

O fogão em Guyrapa era uma cadeira de escola sem o assento de madeira com uma grelha em cima. O fogo é nutrido pela lenha embaixo desta estrutura. (geralmente o modo de cozinhar indígena é com fogo a lenha. Originalmente, pedras sustentavam o cozido (foto)). A maior dificuldade, além da posição para cozinhar no fogão muito baixo (que para mim resolvi melhor de cócoras) foi controlar a potência do fogo (alto, médio e baixo). Na fogueira consigo fogo baixo afastando as linhas da fonte de calor e fogo alto aproximando. Depois que me acostumei, consegui acertar a dinâmica da lenha.

Passei a tarde toda cozinhando o caldinho que seria servido a noite. Almocei com eles, entretanto, galinha refogada (com um tempero simples, mas delicioso), arroz, feijão e milho.

Enquanto Eu preparava o feijão, algumas mulheres preparavam a base de milho da bebida que seria fermentada para o dia seguinte (acho que algo parecido com cauim). Disseram-me o nome, mas não consigo gravar as palavras Guarani de primeira.

O caldinho ficou pronto no fim da tarde (umas 17h). Roger chegou no começo da noite, e com ele vieram alguns integrantes do projeto Beija flor, de Diadema. A cerimônia teve início a noite. Recebemos, todos os homens, inclusive os visitantes, um ramo de erva antes de entrar na Opy. Fizemos uma fila ordenada em tamanho crescente, do menor para o maior, e em fila entramos na casa sagrada. (Esse costume de fazer filas e esta ordem, aliás, é recorrente entre os Guarani)
Ao som do mbaraka e do raveí, demos uma volta no sentido anti-horário e penduramos os ramos de ervas num bastão na parede.

Yamandu, então lider de Guyrapa, me disse que o batismo da erva é uma cerimônia muito importante. Representa a prosperidade na roça, na colheita, pedimos a nhanderu que tenhamos um ano bom e próspero.

A cerimônia seguiu com cantos e danças para nhanderu.

Houve, novamente, um conselho onde Xamõi papa falava, contava um pouco sobre esta noite (tive muita dificuldade para compreender a língua Guarani). Cada um dos visitantes foi convidado a ir na frente para falar (no meu caso, agradeci o período que pude estar com eles e contei minhas impressões sobre o processo)

Seguiu-se um xondaro (esperei muito por esse momento e me foi permitido dançar)

Seguiu um ritual de cura, da mesma forma que a noite anterior, e teve início a mboraí (?), cerimônia de nomeação. Elson (?) recebeu um novo nome: Tucumbó (deste eu tenho certeza!)

Esta cerimônia contém uma dança especialmente interessante. Todos ficamos de pé de frente para a parede mais importante da opy*, homens à frente e mulheres atras. Todos iniciam, de mãos dadas, pequenas flexões nos joelhos ao som de uma música repetitiva e mântrica conduzida pelo Xamõi. Estas flexões vão se tornando, progressivamente, saltos baixos e em roda e todos, de mãos dadas, vão girando ao redor do pajé, em sentido anti-horário. À medida que a dança cresce (ela é muito longa, deve durar cerca de uma hora e meia), as pessoas vão se entregando a um transe indescritível. Alguns vão se cansando e, cansados, desfalecem, saindo da roda.

A dança terminou. Era próximo das 3 da manhã. Eu estava exausto. No dia seguinte, tinha dores musculares, mas uma sensação de leveza e purificação.

Fui embora da aldeia esta noite.

Mas voltarei ainda duas vezes, que escrevo subsequentemente.

 

O espetáculo Profetas da Selva, bem como atividades referentes a ele, foi aprovado no Edital PROAC nº 04/2015 – Produção de Espetáculo Inédito e Temporada de Dança pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

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